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Adriano B. Espíndola Santos

É natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; e em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, ambos pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária. Membro do Coletivo de Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. 

MIRANTE ESCATOLÓGICO

Eu tinha cinco ou seis anos e não entendia nada da vida; o porquê de ser jogado de um lado a outro, como uma marionete desusada. Mas ir ao sítio do meu avô, no interior do interior de Missão Velha, praticamente em todas as minhas férias da escola, me religava à condição de existir. Sim, pode ser exagero; que seja. Eu contava as horas para aquela embromação de aula acabar. Minha mãe, depois que se separou do meu pai, mais ou menos nesse período, embora dissesse o contrário, adorava se despedir de mim; não chorava nem uma lágrima de crocodilo. E aí, se enfiava, como eu, na vida que lhe competia. Os meus avós já haviam pedido à minha mãe para eu ficar por uns tempos; que eu gostava tanto, que era capaz de me adaptar aos moldes do singelo lugar. Minha mãe, em acessos de raivas a cada vez que eles tocavam no assunto, dizia que seria uma loucura relegar a minha educação a uma “escolinha qualquer de fim de mundo”. Eu suponho, pelo que conheço de gente e de suas artimanhas, que minha mãe pensava que, estando eu no interior, perderia as benesses de uma vultosa pensão. Na verdade, ela não estava nem aí para os meus estudos. Se via a minha agenda duas ou três vezes no ano, era muito. Martinha, a moça que ficou um tempo cuidando de mim, era quem me ensinava as tarefas da escola. Após anos de afável convivência, a coitada foi mandada embora porque, supostamente, me “adulava demais”. Minha mãe chegava sempre por volta das oito da noite, mal me dava um beijo de boa noite, com gosto de álcool, e corria ao telefone para papaguear leviandades com as amigas e os paqueras. Enfim, não vou entrar nesse mérito, porque não quero ser machista; a única coisa que me incomoda ainda, depois de tantos anos, é que minha mãe não “perdia tempo” comigo: “Menino, eu não vou perder tempo com isso!” era a frase pronta, “n” vezes repetida; enjoativa, até. Bem, eu sabia que com ela não poderia contar. Muito menos com o meu pai, que, já no auge dos seus sessenta anos ou um pouco mais, passava o tempo a viajar com as namoradinhas. Mandava-me fotos de lugares que eu compreendia que nunca poderia conhecer, com ele. O velho parece que sentia o seu trágico destino: numa rua de Lyon, na França, o seu carrinho, uma Mercedes, foi arremessado a quilômetros de distância por um caminhão. Virou um maracujá. A sensação que tive, quando soube da notícia pela boca da minha mãe, nervosa, entre falas com o seu advogado, foi um simples: tudo bem; vida que segue. O velhote gozou a vida e da vida. Daí, fui obrigado a encarar uma briga que eu não queria, por uma fortuna milionária, com os meus cinco irmãos, todos de mães diferentes. Só aos vinte e cinco anos recebi uns ativos e uns imóveis, que hoje me sustentam e bancam os meus excessos. Voltando aos meus avós maternos: no verão de noventa e dois, eu estava no Sítio Esperança, esperando que algo grandioso acontecesse. Minha vozinha, dona Vinícia, estava acamada, por umas complicações intestinais, eu acho, então eu quedava o tempo colado com o meu avô. Ele tinha uma pocilga e um galinheiro, e uma plantação pequena de hortaliças e fruteiras. Como eram ele e o Souza que cuidavam das arrumações, eu ficava com pena e botava a mão na massa, intuindo que meu avô precisava de mim porque estava velhinho. Não foram poucas as vezes que o vi por um fio para se quebrar ao meio. Ele inventava de carregar cargas de rações e estrumes, e à noite dizia que estava se vendo de dor. Aí, eu preparava uma massagem e o velhote dormia, e eu ia correndo para a minha avó me contar alguma historinha bacana; ela era boa nisso. Meu avô, seu Honório, tinha um costume no mínimo esquisito: fazia suas necessidades no mato. Num belíssimo dia, vi-o acocorado, como uma rã, sem conseguir se levantar. Tinha feito a maior porcaria no chão. Fedia pra caramba. Nossa, nem consigo descrever! Algo como um bicho morto; por aí. Eu não tinha como entrar lá e ajudá-lo. Primeiro, porque ele se queixaria de que eu estava bisbilhotando; segundo, porque o cheiro lutava para me empurrar para longe. Logo eu tive uma grande ideia: fingi que havia me machucado; gritava de uma dor fajuta; assim meu avô tinha de me acudir. Com dois minutos, ele se levantou, segurando o calção, quase tropeçando, exalando merda. O velhinho ficou por conta, vendo que não era nada demais; talvez revoltado por não ter se entregado ao prazer de cagar em paz. Hoje, aos noventa e dois anos, ainda mantém o excêntrico costume. Mas, na nova e magnífica fazenda que comprei para ele, construí um banheiro num mirante. Ele passa horas cagando, refletindo, e chega a dormir, de tanto deleite. Posso dizer que sou um homem feliz… e ele também.