Adriano B. Espíndola Santos

Natural de Fortaleza, Ceará. Autor do livro Flor no caos, pela Desconcertos Editora, 2018. Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem crônicas e contos publicados nas Revistas Berro, InComunidade, Lavoura, LiteraturaBr, Literatura & Fechadura, Pixé, Ruído Manifesto, São Paulo Review e Vício Velho. Advogado humanista. Mestre em Direito. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.   

INSÂNIA

Quando passava pela Rua Quinze, senti um choque que seria o surto da morte; uma febre nos ossos que me fez sentar e me escorar na parede do prédio abandonado. Eram cinco da tarde, e mirava, ao longe, a imagem de duas senhoras: uma muito novinha, de seus dezoito anos, e outra, com ar imponente de dona, a gesticular, como se contasse uma história extravagante, alheias às crianças que brincavam – por sinal, uma delas, muito próxima à jovem, parecia seu irmão ou, talvez, filho; um tanto familiar.


Aquilo me possibilitou, por segundos, o alívio da distração, no intento inconsciente de compreender o alarme estampado nos rostos. Em lapsos programados, alcançava que eu mesmo sentia algo terrível, lancinante; um repuxo muscular me torcia o rosto inteiro e a cabeça para trás, de súbito, como que esticando todas as extremidades. Depressa, as pernas se entrelaçavam, e os dedos enfiavam-se nas palmilhas gastas dos sapatos, comprometendo o fluxo sanguíneo.


Agonizante, com as mãos postas na altura do estômago, percebi que um senhor se aproximava para falar qualquer coisa. Não estava, absolutamente, para conversas tolas. Não conseguiria, nem se me esforçasse muito, travar um colóquio franco, cordial. Pensei em despachá-lo, de pronto. Mas o homem se chegava leve, carismático, com um ligeiro sorriso nos olhos, decerto apto a ajudar.


Sucedeu exatamente como imaginei. Perguntou sobre o que teria se passado comigo. Disse que, nessa idade, já sabia de muita coisa e poderia me acalmar e me orientar. Estava disposto a fazer o que estivesse ao seu alcance, me falou, com os olhos fixos, lacrimejantes. Notei, então, que seria um morador de rua, que poderia me pedir algum trocado; que, no fim, quando melhorasse, “passaria a sua conta”. Ajuizei que não iria pagar coisíssima nenhuma.


Fechei o rosto, balançando a cabeça em negativa. Foi aí que, parece que percebendo o meu interesse, falou que aquelas senhoras estavam ali todos os dias, invariavelmente nesse horário, para brigarem em público. Interessei-me, de fato, porque, além do mais, tiraria o foco da dor. Falou que tentava afastá-las a todo custo do recinto, sua morada, sobretudo porque, volta e meia, acabavam se desentendendo gravemente e roubavam não só a sua paz, mas da comunidade inteira, que se via aflita, perturbada.


Enquanto falava entredentes, rareando o ar, nalguns momentos, querendo ganhar a minha atenção, eu quedava comprometido, com aquelas mãos distantes, que socavam o ar, em movimentos selvagens. “Dona Albertina, essa mais cheinha, é ranzinza, amargurada, porque o marido a deixou por uma mulher encantadora, que trabalhava justamente neste prédio, que antes era a casa de diversões”.


Ainda murchava a cara de dor, mas estava fortemente tomado pela curiosidade. Perguntei-lhe como sabia de tanta coisa. “Meu filho, moro aqui há vinte e cinco anos, desde que fui à falência e acabei enxotado de casa pela mulher, por causa da miséria e da maldita pinga”.


Estava, em partes, explicado. Ansiava me livrar da dor e da presença do homem, que desejava, mais que tudo, papear. Não o fiz porque o sujeito adentrava mais na história cabeluda, contando que o marido era um frequentador assíduo do lugar; que, por ser endinheirado, teria, inclusive, dado uma casa para a moça bonita, para tirá-la da zona.


Na sequência, pude me cientificar da fúria da dita mulher, largando um tapa certeiro na cara da mais nova; parecia cena de novela. A criança, atada às suas pernas, começou a chorar. E, sem poder tomar fôlego ou reagir, a suposta mãe era arrastada pelos cabelos. “Não ligue, senhor, isso acontece quase todos os dias. Voltam para casa aos tapas”. Portanto, dizia o homem conformado, e até de certa forma satisfeito, que não tentaria mais ajudar porque, como de outra feita, poderia sobrar uma bordoada em seu ouvido. Ficara uma comprida semana sem escutar direito, e não sabia ao certo se teria a audição afetada para sempre.


Cada passo me custava muitíssimo. Mas fui; algo me impregnava de justiça. O que teria a mocinha a ver com os problemas da malvada? Que resolvesse só, sem prejudicar ninguém. “Cada um com seus problemas…”, raciocinei. O homem, incrédulo, me seguia distante, com as mãos na cabeça: “Não faça isso. Não se meta, senhor. Isto é para o diabo”.  Nada me impediria de dizer umas verdades, atulhadas em minha boca, prontas para arrebentar a megera.


“Espere aí. Aonde pensa que vai? Acha mesmo que vai sair batendo nas pessoas e se safar ilesa?”. “Ah, pois bem, veio tomar as dores da bandida, não é?”. “Ainda por cima chama a filha de bandida…”. “Filha? Rs. Esta cretina é minha sobrinha, e olhe lá! Está aqui de favor… E o senhor não tem nada com isso!”. “Não admito que batam em pessoas indefesas!”. “Indefesa? Rs. O senhor é um tolo mesmo. Essa se acostumou aos pequenos trambiques, rouba dinheiro de minha bolsa, até objetos de casa, aproveitando-se que sou quase cega e surda, e vem se divertir nessa amaldiçoada casa dos prazeres com esse canalha que estava há pouco com o senhor”.


Olhei para trás, o canto mais limpo. A dor me tornara, além do mais, confuso. Não tive meios para rebater. Sentei-me no banco, com as mãos no estômago, e acompanhei a moça com a cria acompanhando a tia, por livre e espontânea vontade, ainda que sufocada, olhando-me com cara de ajuda; ao passo que a tia a admoestava, rogando-lhe pragas, suplicando que fosse embora na manhã seguinte, cedinho, antes de se deparar novamente com sua cara sonsa.


Demorei ainda algumas horas para me desligar da cena. Que deveria ter agido, ainda assim. Que não se deve permitir, em hipótese alguma, uma agressão. Que era minha obrigação questioná-la desse círculo vicioso nocivo.

Acordei, com os olhos tesos, com a cara para o teto frio. Uma nuvem densa me aturdia; eram vultos rondando por toda parte. Encarar diretamente me atacava em calafrios; me submergia em trevas e provocava ânsias de vômito. Luiza, então, despertou. Tomou meu pulso. Tocou levemente meu rosto, com sua mão macia, e me pediu calma: “Meu amor, de novo? O mesmo sonho? Tente dormir. Amanhã será um lindo dia, pode acreditar. Confie em mim”.


Até hoje seguro as mãos de Luiza como se fossem as de minha mãe. Sinto-me inteiro, seguro, crente que um dia libertarei os espíritos errantes de minha ascendência para a sua verdadeira morada. 

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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