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Adriano B. Espíndola Santos

Natural de Fortaleza, Ceará. Autor do livro Flor no caos, pela Desconcertos Editora, 2018. Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem crônicas e contos publicados nas Revistas Berro, InComunidade, Lavoura, LiteraturaBr, Literatura & Fechadura, Pixé, Ruído Manifesto, São Paulo Review e Vício Velho. Advogado humanista. Mestre em Direito. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.   

DEISE, MINHA IRMÃ

Acordei contemplando a incerteza de um primeiro dia de “normalidade”. Para todos os lados há pessoas que acenam, como num pedido de socorro: me devolvam a normalidade – ou a sanidade –, como se fosse possível comprar na quitanda ao lado; como se fosse possível materializar essa vontade.


Abri o noticiário, como faço todas as segundas, numa tentativa frustrada de projetar, em minha mente, um panorama do que será o amanhã. Nem mesmo Deus poderia lhe dizer, cara leitora; mas eu, um tonto, tento decifrar os caminhos dos próximos desastres humanitários.


Na primeira página, logo de cara, me deparo com a imagem de dezenas de pessoas na porta de uma loja conhecida, no grande dia de sua reabertura – autorizada pelo governo do estado, num programa, segundo o responsável, montado com a mais perfeita isenção e com a preocupação devida à saúde dos mocoenses.


Sobressai o rosto de uma moça de talvez vinte e cinco anos, no máximo, com a farda da loja, à porta, acompanhando no olhar a entrada dos serelepes fregueses. Está congelada no tempo, assim, com a cara fechada e os braços igualmente cerrados; cabeça inclinada à esquerda, cabelo preso, também, e o detalhe: usando uma máscara negra. Todas as demais funcionárias – na foto se podem perceber sete – usam máscaras vivas, ou simplesmente brancas. Mas Deise – designada por mim, porque lembra muito uma conhecida do bairro; quem sabe seja mesmo ela –, por descuido ou intencionalmente, resolveu retornar ao trabalho com uma máscara negra.


Passei longos minutos pensando. Poderia perder preciosos minutos com isso? Não teria mais nada para fazer? A leitora poderia perguntar, já sem paciência para descobrir o sentido das palavras que aqui despejo. Tempo, tempo, na verdade não tenho. Em casa, com o trabalho remoto, sou chamado, pelo menos, de meia em meia hora para “desarmar problemas” que, no mais das vezes, se mostram inúteis, fúteis; por isso essa minha entrega às particularidades que importam.


Voltando. Deise, como eu, devia estar enojada da movimentação, das pessoas se acotovelando para entrar na loja, amparadas por uma superfície de normalidade, atestada pelo semblante risonho do ator – coitado do ator; os artistas sofrem para conseguir o mirrado ganha-pão –, na propaganda de liberação, criado pelo governo, veiculada nos grandes canais.


Deise, como eu, estaria provavelmente contrariada por não ter ido à passeata marcada para o dia anterior, com o intuito de coibir os crimes de racismo, de fascismo, sobretudo estimulados pela escalada fascista no Planalto.


Deise deve ter pensado, no domingo, que, se fosse à manifestação, poderia colocar em risco a vida da avó doente e da tia que mora nos fundos da casa conjugada, porque não tem para onde ir e sofre de uma doença chamada lúpus; ou seja, altamente suscetível. Ainda mais, pela mãe, que já não tem essas saúdes todas, e pelo filhinho de quatro anos, o Lucas, que reclama sua inteira atenção, dia e noite.


Luiza – outro codinome, para desvendarmos os caminhos –, amiga de longa data, vizinha da rua de baixo, ainda a teria convidado, com até bastante insistência, dizendo que deviam enfrentar o fascismo, que não dava mais; que o inimigo devia saber a dimensão e o poder do povo que ama, de verdade, a pátria, etc. e tal. Deise recusou. Com o coração na mão, em ares de se debandar, recusou pensando no inimigo invisível, e passou boa parte do dia chorando, com o pequeno Lucas, a tiracolo, perguntando: “Mãe, por que tá cholando? Chola não! Eu te amo, mamãe!”. Lucas acabou entrando no choro. E dona Lúcia – a personagem factível –, ao passo que tentava dissuadir a filha, dizendo que outra hora ela iria; que isso tem de mês em mês; que precisava dela em casa, sadia; mandava largar de mão o choro, que tinha serviço para fazer.


Ao sair do quarto com Lucas no colo, a avó, dona Esperantina – a outra personagem crível –, passou a mão no seu braço e segurou, para dizer: “Mia fia, não fique assim, não, que vó ama muito! Isso tudo vai passar… Já passei por tanta coisa, que nem mia fia vai acreditar”. Deise retribuiu o carinho, com um cheiro no cangote; mas, infelizmente, não diminuiu o aperto, por pensar, justamente, que teria de suportar, no outro dia, a ida ao centro, pegando duas conduções, mais o furdunço do terminal, na baldeação, e depois entrar na bendita loja, que não mandou nenhum comunicado afável, preocupado, simplesmente determinou a reativação.


Deise, pelo visto, não teria tomado o café da manhã que prestasse, ou, se tivesse, não seria nada que mudasse o ânimo, pois que nem fome teria direito. Entrou na loja e, olhando as caras das companheiras de trabalho, sentiu que só a Naiara e a Fátima estampavam alguma alegria, inocentes, crendo numa normalidade anunciada.


O locutor, numa euforia artificiosa, gritava a volta gloriosa: “Voltamos! Voltamos!”. Ao fundo, a música que ninava os compradores ávidos, procurando caixas de felicidade; outros, de satisfação: “Eu voltei, agora pra ficar, porque aqui, aqui é meu lugar…”.


Entre a troca de roupa e a exposição ao caos, Deise não recebeu nenhuma orientação, muito menos afago da gerente, a Sara, que estava bastante ocupada em saber do funcionamento do sistema; se estava em ordem; se não teria comprometimento quando começasse a computar os lucros esperados da empresa. Sara, tão somente, de longe, foi curta e grossa: “Deise, para a porta! Acompanhe a entrada!”.


Deise, então, calhou de “organizar” a passagem. Quando a porta foi aberta, por ela também, não deu tempo de reparar; três homens entraram esbarrando em seus braços, levando-a a se desequilibrar e cair no chão. Não foi amparada pelas colegas, que estavam ocupadas se distribuindo em sorrisos e atendimentos personalizados. Deise se apoiou na barreira de controle de perdas, com as pernas bambas, sem forças, e chorou sozinha por cerca de cinco minutos, sem arredar os pés da entrada, obedecendo a gerente Sara. Pensou na avó, na mãe, na tia e no neném. Pensou em largar tudo e sair correndo. Mas pensou e pesou, no mesmo instante em que era clicada, que só ela arcava com o grosso da casa.


Por isso, para a posteridade; para quem porventura se atrever a fazer um estudo sobre as agressões à dignidade humana no período pós-crise, verá o rosto cerrado de Deise e, logo, conceberá que expuseram a população a risco grave e desnecessário. 
Deise poderá ter partido, inclusive em razão do maldito vírus, e deixado sua emblemática contribuição.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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