Adriano B. Espíndola SantosNatural de Fortaleza, Ceará. Autor do livro Flor no caos, pela Desconcertos Editora, 2018. Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem crônicas e contos publicados nas Revistas Berro, InComunidade, Lavoura, LiteraturaBr, Literatura & Fechadura, Pixé, Ruído Manifesto, São Paulo Review e Vício Velho. Advogado humanista. Mestre em Direito. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.   

FOGO-FÁTUO-PERPÉTUO

“No calor da emoção”, dizia João; “foi no calor da emoção”. Era assim que João resolvia, mentalmente, suas questões – e achava, por certo, que compraríamos a ideia de homem perdoado por suas incúrias.


Um canalha, sim; um canalha de marca maior. Aprofundava as rinhas familiares ao expor as suas tragédias pessoais. Eu não sou nada, nem sei por que me meti nessa resenha; mas namorei Silvinha, o grande amor de minha vida, e, por sinal, filha do calhorda.


Já não nos falamos tanto, como gostaria, porque Silvinha quis se distanciar. Mantínhamos uma amizade faceira; colorida, o que me deixou um pouco constrangido e angustiado quando ouvi de seus lábios as seguintes palavras: “Raul, a gente não pode continuar assim. Você machucou a minha família… Nosso amor é imperdoável. Sinto muito”. Mas o que fazer, se o carinha lá adentrava a casa quase todo dia trôpego e, vacilante, segundo descrevia, derrubava meio mundo de casa; até uma parede chegou a arruinar.


Não era só. Destacava-se por doente, adicto. No entanto, todos nós sabíamos, tinha a canalhice intrínseca, porque continuava praticando os mesmos trambiques, que lhe alimentavam a vida. Um desses dias, na virada da década, abeirou-se, como quem não quer nada, para me pedir um favorzinho: “Rapaz, sei que é um cara bom, às vezes até bobo demais, pelo jeito que trata minha filha. Vou lhe dar um conselho: seja mais intransigente; tenha brios de homem, pode até, se quiser, dar uma lapadinha de leve, se ela não lhe atender. Mas o negócio é o seguinte: tenho um trunfo aqui para você casar de vez, se é isso que tanto quer. Para o nosso acordo, cobro a miudeza de mil reais. Ela vai ficar coagida a aceitar casar com você, garanto. Sei de uns podres dela. Só para ter uma ideia, essa moleca é viciada em fogo; já tacou fogo em uma porrada de coisa aqui, até em suas roupas usadas”.


Hum, sei, piromaníaca. Uns drinques, quando saímos, vinham sufocados por fogos superficiais, em caldas vermelhas e amarelas derretendo e descendo, suaves, ao fundo do recipiente. Via seus olhinhos brilhando. Verdade. Nisso o velho tinha razão. Mas esse negócio de um trocado para liberar outras informações não carecia mais. Mandei o velho se ferrar; e disse que ele tivesse respeito à filha, que só fazia o bem, ajudava-o a desatar das enrascadas, já que era advogada penalista. Acho que por amor a ele se formou. Atuava, praticamente, para abafar as pirotecnias do pai. Ganhava dinheiro mesmo com artesanato, que o pai e a mãe, dona Lucinha, a sombra de João, descartavam trabalhos braçais: “Isso não são modos para pessoa estudada que nem você. Esqueça e se entregue à advocacia, seu verdadeiro dom!”. Ela improvisava, continuava porque amava, às escondidas; e ganhava um bom dinheiro com arranjos de flores e encomendas para festas infantis.


Então, felizmente, João foi abocanhado por seus próprios flagelos; pelo ar impositivo da negatividade que sempre o encobriu (e nos encobria). Morreu de cirrose, em casa, porque disse que médico nenhum iria lhe botar a mão, se meter em suas ações. Atenderam ao seu último pedido, mesmo morrendo de dor com ele. O corpo se consumia de dor; ele gemia e se debatia no quarto, na sala, em todo lugar, para o delírio dos presentes. Não conseguiam acompanhar. Silvinha arrumou umas morfinas, algo do tipo, e o homem passou a se agitar menos, morrendo por conta própria, antes mesmo de receber a derradeira cobrança, de cinquenta e dois mil reais, indenização por danos morais e materiais; e a posse direta da casa, por ter vendido e não a ter entregado, como aprazado. Silvinha, até hoje, luta para descartar a assinatura da mãe, incauta dos pés à cabeça; sem dar conta nem de assinar direito, não poderia ter tomado ciência daquilo.


O momento mais esplendoroso de minha vida foi o nosso reencontro. Consolei-a no velório, rápido e prático, numa funerária fubeca, no centro, só para não passar batido; com três ou quatro pessoas, fora a família. Silvinha estava desolada. Mesmo diante de tudo, guardava o amor de filha; claro, é uma pessoa sem par, porque, se fosse meu pai, já o teria abandonado há tempos. Esse amor… ah, esse amor reacendia a cada encontro. Sentia que me amava também, mas ainda estava magoada pelo palavreado que soltei, nas buchas, para o seu pai. Era seu pai, enfim, deveria ter entendido. Não falo mais um ai sobre o fulano. Contudo, conduzi-a a fazer o que queria, para liberar a memória e causar-lhe um tanto de prazer: sugeri que queimássemos suas roupas, bens que não teriam serventia, só para deixá-las sofrer. Assim o fez, com os olhinhos brilhando e me abraçando, agradecendo pela magnífica ideia, enquanto sua mãe olhava zonza, coitada, sem contrariar os instintos da filha, assaz suspeitos desde a tenra idade.


Voltamos a namorar e a frequentar festivais e jogos em que, em dado momento, aparecesse uma faísca sequer. Seus olhinhos brilhavam. Ela entendia que sabia. Não dizia nada. Ardia meu coração. Fogo-fátuo perpétuo.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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