Adrianne Rocha 
É de Tangará da Serra, arte-educadora, poeta, atriz e contadora de histórias. Autora do livro “Pátria Sem-terra” pela editora UNEMAT. Publicou na “Antologia Poética”, Prêmio Poetize 2019, série Novos Poetas da VIVARA Editora Nacional.

A PORTA

O molho de chaves arremessado sobre a mesa. Ruído vindo do apartamento vizinho anunciando a chegada do seu morador. Deve ser mais de meia-noite, pensou tirando os olhos da tela do computador. Deu-se conta do tempo que estivera mergulhada escrevendo seu novo romance. – Chega por hoje. Disse em voz alta levantando-se da cadeira. Refletiu uns segundos.


– Certo, considerando que o hoje iniciou há poucos minutos, então, chega por agora. Ela riu, chacoalhando a cabeça após ouvir a própria voz. Pegou a xícara de chá, levou-a para a cozinha, lavou a xícara, a colher e as deixou no escorredor, guardou o açucareiro e tampou o fogão, conforme costume da mãe. Ao voltar para o quarto, no corredor, sentiu um arrepio, um nó na garganta, nostalgia quem sabe. Parou, respirou três vezes profundamente como a terapeuta ensinara. Suspirou e disse terna e francamente:


– É bom estar em casa, mesmo que a passeio.


Ela realmente sentiu-se em casa depois de tanto tempo. Segura. Entrou no quarto, trancou a porta. Certificou-se de estar trancada. Tirou o seu hobby rose de seda o qual não gostava, mas, sendo presente da mãe, pelo menos quando a visitava precisava usar. Seu uso tornou-se mais frequente desde que o pai falecera. Largou o hobby na guarda da cadeira. Ele foi escorregando lentamente amontoando-se no chão.  Ali amanheceu.


Ajeitou-se na cama. – Droga! Lembrou-se da luz do corredor. Levantou-se para apagá-la, veio na memória as lembranças do tempo de infância. Quando nas férias as primas vinham passar alguns dias depois do natal. Podiam ficar até tarde assistindo TV, ao irem para o quarto, apagavam a luz e saíam correndo, se escondendo sob as cobertas. Sentiu-se feliz ao fazer o mesmo tanto tempo depois. A porta ficou entre aberta.


 Mil pensamentos, três agradecimentos para cada prece.


– Cuide da mamãe, amém...


Pensamentos, passado, futuro, olhos pesados, algumas coisas não mudam...Virou-se duas ou três vezes até o primeiro cochilo. Despertou de súbito com o ranger da porta, o ruído característico e temido desde a infância. Cobriu-se toda, coração disparou, respiração ofegante, suas carnes gélidas e trêmulas. Vontade de fazer xixi. O Grito não saía da boca seca. Encolheu-se no meio da cama tomada de pavor, medo e nojo. Percebeu o ceder do colchão nos pés da cama. Encolheu-se mais como se fosse possível, parecia um feto.


 O peso vinha em sua direção, sente ser tocada no tornozelo. – Tudo de novo. Pensou mordendo os lábios, apertando os olhos. Escuridão. Tornozelo, joelho, coxa, o peso parecia uma tonelada. Em meio ao tormento e aflição ouviu um miado.


– Mastruz! Ela esqueceu o velho hábito do gato Mastruz de subir na cama, caso encontre alguma porta aberta. Mas, ela não esqueceu tudo o que sentiu na infância e adolescência, quando a porta rangia no meio da noite enquanto o seu tio-avô vivera na casa.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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