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Adilson Vagner de Oliveira 
É professor na área de Linguagens do Instituto Federal de Mato Grosso, Campus Avançado Tangará da Serra, fez mestrado em Estudos Literários pela UNEMAT e doutorado em Ciência Política pela UFPE

DESEJOS PELO CIMENTO

Hoje eu acordei com saudades, 
mas não cheguei a chorar,
tive vontade de me sentar à beira de seu túmulo, 
abaixo de um sol vingativo que pudesse me queimar,
que pudesse fazer sulcos profundos na minha pele.

Para que soubesse que ainda sofro, 
mas é sempre muito pouco comparado à sua dor final,
este mês de novo desejei partir também,
sei que não lhe encontraria, mas agilizaria meu fim,
somente assim poderíamos nos igualar novamente. 

Nada em vida evitou nossas dores, 
que seja então pelas nossas mortes distantes, 
ainda que apenas deixemos de existir universalmente
e nossos corpos secos cessem de produzir palavras, 
seremos dois vizinhos separados por muros baixos.

Meus demônios me rodeiam todos os dias,
insistem em trocar algumas palavras-convites, 
uma hora eu sei que eles me vencerão, 
não tenho defesa para o que sejam capazes de fazer,
eu me descobri, surpreendentemente, fraco e de fácil domínio.

Cada um sabe as dores de carregar seus mortos, 
os outros seguem suas vidas de trabalho e impostos,
eu finjo aceitar a rotina cinza dos restantes, 
organizo meu caos da mente e do corpo,
tento controlar os desejos pelo cimento.