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Aclyse Mattos

É escritor, poeta e professor da Faculdade de Comunicação e Artes da UFMT. Livros publicados: Motosblim: a incrível enfermaria de bicicletas (infantil – 2019) O sexofonista (contos - 2018), Sabiapoca – Canção do Exílio sem Sair de Casa (infantil – 2018), Festa (poesia – 2012), Quem muito olha a lua fica louco (poesia – 2000).

PIXÉ – O “Assalto à Mão Amada” não deixa de se filiar ao experimentalismo estético resultante do intensivismo e do concretismo brasileiro. Os “poemas industriais” lidam com a expressão gráfica e com a distribuição espacial diferenciada do texto. A partir de “Quem muito olha a Lua fica louco”, você abriu mão dessas experiências, muito embora ainda conserve o haicai, por exemplo. O que aconteceu dos anos 80 pra cá?

ACLYSE MATTOS –  Podemos dizer com Tomás Antônio Gonzaga “São estes os sítios?\ são estes, mas eu\ o mesmo não sou”.  Ou então “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” (Camões). Mudança permanente é estar vivo. Penso que poesia é experiência sempre. Gostaria que cada poema engendrasse sua própria forma. Claro que o Intensivismo e o Concretismo foram uma grande atração para mim. Prezo até hoje as invenções desses movimentos. Mas o caminho da mudança é a potência se atualizar em novas formas. Nada da obrigação do engajamento. Enquadrar e rotular é limitante. No “Assalto à Mão Amada” já tinha feito meu manifesto: O Excessionismo (Excesso ou Exceção?). Como ainda vivíamos um regime de exceção, meus amigos engajados viram uma resistência ao regime; meus amigos românticos viram um transbordamento pelo excesso. O símbolo poético é múltiplo. Citei aqui dois poetas antigos (Camões e Gonzaga) só para mostrar que o símbolo poético não se entrega nunca à ditadura do significado. Quanto mais a do proletariado. Poesia é Liberdade. Só quem não tem medo da beleza, da emoção e da paixão encontra a poesia. As diferenças entre meus livros é uma busca que jamais termina. Assim como cada poema deve se engendrar, cada livro é uma constelação de poemas formando um macrossigno poético. Em AMA experimentei um mosaico de várias partes-facetas (como os 11 poemas industriais, o Parque de Diversinhos, Achados no Espaço) formando um grande caleidoscópio que é um mosaico móvel (graças aos olhos de quem lê). Todas as páginas dialogam com os desenhos de meu irmão Gabriel Francisco de Matos que fez as ilustrações e o design. Em QMOLFL é tudo ao contrário: quis desenhar sem desenhos, o livro é um fluxo só sem seções, o encadeamento é fluido como os rios correndo para o Pantanal. AMA é cosmopolita, citadino, polifônico, reflete muito meu choque de ir estudar em São Paulo e depois no Rio de Janeiro. O Festa é modulado pelas sonoridades. O Com por, que está indo para a gráfica agora, é modulado pelas experiências mágicas de ler e escrever. Cada livro tem que ser uma constelação nova. O haicai está sempre comigo pela sua filosofia (primeiro verso uma contemplação do fora-mundo-exterior\segundo verso perceber uma transformação nesse fora\terceiro verso perceber como essa mudança nos muda interiormente) Isso é lindo demais. Uma verdadeira ópera em 3 atos microscópicos. Veja só esse haicai de Bashô quando ele não colhe as flores para o túmulo da mãe para que elas permaneçam vivas:

 

Dia de finados                                                 (percepção externa, aqui, do tempo)

Do jeito que estão                                          (causar uma mudança, não mudando)

Dedico as flores                                              (não colher as flores! A vida vence)

 

Não é lindo? Temos aqui em MT dois grandes haicaistas: Odair de Moraes e Ivens Scaff. Em parte o que mudou em mim é que não acredito em mudanças fora. A mudança tem que ser na consciência e na sensibilidade das pessoas em si. Depois dos anos 80, ninguém aguenta mais ideologização sobre as coisas porque ela é também um véu que ilude. Acabou a Ditadura, caiu o Muro de Berlim (tem um poema lindíssimo de Everton Almeida sobre o Muro de Berlim interno de cada um e do poeta), a União Soviética se desuniu. Acabou aquela ilusão de que não éramos melhores porque nos oprimiam e nos censuravam. Lembro uma oficina de poesia lá com os Ladrões do Fogo no RJ quando Antônio Carlos Secchin falou que a poesia também precisa de superego. Caí do céu porque eu ainda idealizava a escrita automática dos surrealistas. Automatismo subconsciente não é suficiente. Se o escritor não apura suas formas, quem sofre é o leitor.

 

PIXÉ – Além de escritor, você é professor e lida com a comunicação no seu cotidiano. Queremos uma reflexão sua sobre a comunicabilidade da poesia visual. Antes de tudo, você chamaria de poema uma expressão que passa ao largo do alfabeto/texto? Após fazer essa primeira e fundamental consideração, dê sua opinião sobre o poder de comunicação das propostas brasileiras de vanguarda: aumenta o público pela evocação simbólica ou o restringe pela mensagem sofisticada?

ACLYSE MATTOS – Minha formação foi completamente heterogênea. Rádio, Cinema, quadrinhos, TV, tudo isso me formou sem me em-formar. Sempre digo que aprendi a ler antes de ir para a escola através de gibis e placas e anúncios de rua. A poesia está em tudo, em todos os sentidos, porque ela é ato criativo – seja com palavras, seja com sons ou imagens. Ler é de uma forma recriar. Agora a questão da comunicabilidade é complicada. Chego a pensar que a poesia não é feita com a preocupação de comunicar. O poeta é um ser extasiado pela experiência, e a experiência é sempre passageira. E toda forma de arte é uma tentativa de fixar o que não pode ser fixado. A própria palavra experiência, tem na origem grega o sentido de passar (ou ser passado) por algo. Descobri que os gregos também tinham uma palavra interessante: apeirokalia – com o sentido de “aquele que não (a) é capaz de experimentar (peiro) o belo (kalia)”. Se o ser não teve isso em sua formação terá dificuldade para perceber, intuir e inteligir o mundo e as linguagens. Isso nos leva a pensar na importância da educação pela arte desde o inicio, da educação básica – coisa a que tive acesso quase que por acaso, ou por ter um sentido de intensa curiosidade para as experiências, inclusive mediadas. Então a comunicação é um ato segundo; o primeiro é a expressividade desse momento da iluminação sensível. Se o autor começa pensando na comunicação, já esvaziou a experiência em favor do ato retórico. Está é uma crítica pertinente à poesia engajada. Por mais que eu ame a Publicidade (inclusive é a área de minhas disciplinas na UFMT), a poesia é ainda mais porque transcende a imediaticidade e o senso de finalidade. Kant já expressou isso através da noção de estética como desvinculada da finalidade. Fazer poesia é traduzir em símbolos uma experiência. Nessa tradução, como a linguagem é muito limitada, só resta ao poeta injetar nos símbolos os rastros dessa experiência através da iconicidade dos signos (sonoridade, imagética, movimento, espacialidade, sensorialidade). Isso vale para pintura ou qualquer outra arte. Van Gogh é um dos melhores exemplos da expressividade dos signos visuais. Na Holanda, ele começa realista. Depois da morte do pai (que era pastor) ele vai para a França e bebe de todas as Escolas (até da arte japonesa) e aí tem a revelação de que a pintura era mais do que a realidade porque a realidade não mostra o sentimento. Então a tela (e a poesia) é a experiência sensível expressa em símbolos. Como ser comunicativo se ninguém sente igual a você? E justamente essa experiência singular é o que tentamos traduzir em arte. Podemos ir mais fundo com os filósofos gregos e dizer que um artista nunca entra na mesma experiência duas vezes porque o rio das emoções eternamente se transforma. Agora, quanto à comunicabilidade, acredito que a forma deste século será o videogame. O game é uma leitura\fruição que convoca o leitor a escolher e estar dentro da narrativa, uma experiência de imersão parecida com a maratonagem de séries. Como as escolhas são do leitor\jogador ninguém pode alegar que a narrativa é tendenciosa para um lado ou outro. Ainda no século XX, meu primeiro game em computador (acho que era 486 ainda kkk) foi Farenheit 451, baseado no livro de Ray Bradbury em que numa sociedade distópica os livros foram censurados e queimados e só sobreviviam na memória dos leitores. Você descobria seus parceiros de sobrevivência citando senhas que eram trechos de Poe, Melville, Baudelaire, Dickinson. Por falar em videogames, lá nos anos 90 a série Resident Evil era sobre um vírus que “escapou” de uma indústria farmacêutica. E há quem não leve a sério o lúdico!

 

PIXÉ – Quem percorre a sua obra percebe a indissociável ligação do texto (prosa ou poesia) com a música. Não é só o caso de “Festa”, mas de Sabiapoca e de outras composições da sua autoria. No processo de produção, como você lida com o ritmo? O poema é finalizado mentalmente ou você precisa ler em voz alta? É possível dividir poemas em próprios para leitura e os que possibilitam a declamação? Todos os poemas são “declamáveis”?

ACLYSE MATTOS – O meio altera a mensagem. Está aí Marta Cocco com seu livro “Meios” porque todo poema é um meio tanto da experiência para o autor em sua criação, como do autor para o leitor em sua fruição. Há poemas sim para serem vistos. Outros para serem falados e outros ainda para serem cantados. Há poemas para declamar na rua (Castro Alves, por exemplo). Outros para abrir um sorriso no silêncio da leitura muda. Então nem todos os poemas ganham vida na declamação. Nosso pensamento é fruto de uma imbricação de visão e audição. A visão apreende instantaneamente no tempo, mas requer uma espacialidade. A audição prescinde do espaço, mas requer o desdobramento do tempo. A evolução do pensamento vem dessa fusão entre instantaneidade da visão e sequencialidade da audição. A filosofia grega era mais baseada na instantaneidade da ideia (portanto de matriz visual) enquanto que os textos dos profetas hebraicos e árabes privilegiavam a escuta (a ponto de banir as imagens como perniciosas). O bom é não desprezar nenhum dos lados. E o que é o ritmo? Na sequencialidade do fruir temporal, o ser humano (limitado ser humano) precisa de um apoio para seguir sem as micro interrupções da sua respiração. Assim como o arqueiro susta a respiração para fazer a mira de modo a focar na imagem. Assim como a ideia de inspiração poética vem da própria respiração, porque cada vez que o ser capta o ar ele se reinicia em novo ciclo. Ritmo é isso: dividir o tempo em células menores para poder pensar(ver) entre elas e reproduzir o ciclo da vida e do tempo. A poesia nasce da percepção introjetada, então ela já vem entrecortada por esses mini ciclos: o ritmo. Há ritmos longos e breves, rápidos e lentos, complexos ou monótonos. O ritmo é o corpo mediando os sons e imagens, é sair do pensamento puro para soprar vida. Não é essa a história mítica recorrente em várias culturas. Deus soprou a vida no barro para fazer o ser? Um poeta esse Deus, não é? O ritmo é que dá a dimensão corporal ao imaginário. Aonde anda a onda ela instaura seu ritmo: encontro da energia com a matéria.

 

PIXÉ – Dos anos 80 pra cá, quais as principais diferença que você percebe na produção literária de Mato Grosso? Não pergunto em termos de quantidade que é notoriamente maior e mais organizada. Mas queria suas considerações sobre uma nova geração que varia de 20 a 30 anos e está publicando conjuntamente com a geração dos 80. Você percebe diferenças na estética ou na temática dessa moçada?

ACLYSE MATTOS – Não sou um estudioso. Sou mais um amador. Acho que até a geração dos anos 80 e 90 é bem heterogênea e plural. Veja as forças estéticas e diferenças de Lucinda Persona e Luciene Carvalho: completamente diferentes e excelentes poetas. E uma é do Paraná e outra da Corumbá. Vale chamar o Nicolas  Behr que é de Cuiabá, mas mora em Brasília? E quando falamos de Mato Grosso, tem a poesia do Araguaia (Wanderley Wasconcelos), de Cáceres (Edson Flávio) e do Nortão (Santiago Vilela Marques) ? O Passageiro interior de Juliano Moreno está em Várzea Grande ou no Mundo? As musas míticas de Marilza Ribeiro e Janete Manacá estão nas águas de Chapada ou em outro plano espiritual? Os contos de Passagem estreita de Divanize Carboniere cabem na Algazarra de Santiago Santos? O que une a ficção histórica de O conde e a freira de Israel de Faria Figueiredo e a ficção científica de O homem binário de Eduardo Mahon? Nosso romance tem Coração madeira de Marli Walker ou Tikare, alma-de-gato de Alexandre Rolim? Cabem os quadrinhos de Wander, o teatro de Agnaldo e o rasqueado de Moisés? Mato Grosso foi sempre limiar entre territórios (inclusive simbólicos). Quantas revistas e mídias apareceram da Vôte! ao Ruído Manifesto, da Pixé à Mata Pacos, das oficinas do SESC ao PPGEL da UNEMAT e da UFMT, do ECCO e do Viva! Poesia na UFMT à ressignificação da Academia Mato-Grossense de Letras e Casa Barão de Melgaço. Tem também a Escola de Teatro do Flávio e o curso de cinema na Faculdade de Comunicação e Artes. Não gosto de generalização. Há enormes diferenças entre cada autor. Houve uma formação intensa do fazer literário, da crítica, dos estudos. Nosso local não se avexa de tanger o universal. O sonho de Mário de Andrade de ser um tupi tangendo um alaúde, nós, aqui, o praticamos. Que o diga a nossa viola de cocho do professor Abel! E vamos chacoalhando a mesmice com imaginação e pluralidade. Se eu fosse Parnasiano diria que vem uma plêiade muito boa aí, mas como sou cuiabano, já digo que vem uma cambada de gente nova muito boa. E sim, com outras estéticas e preocupações como apontam Matheus Gumenín Barreto, Lucas Lemos, Stephanie Medeiros, Wuldson Marcelo, Caio Ribeiro e os novíssimos como Costa Breu e Bruna Sol (quer contraste maior entre o Breu e a Sol: ele ainda no ensino médio e devorando a filosofia; ela na Universidade e performando no slam com tanto talento). Há também neles uma imensa pluralidade. O que nos une é amizade, afinidade e uma imensa paixão pela imaginação literária. Ou ainda as presenças catalizadoras como a de  Marília Beatriz de Figueiredo Leite ou Rodivaldo Ribeiro. Haveria um Matogrossismo? Deixo a pergunta para a Olga Maria Castrillon-Mendes.

 

PIXÉ – Se pudéssemos colocar a sua poesia no microscópio para isolar a carga genética das influências que você sofreu, quais autores que apareceriam mais, Bandeira, Drummond ou Leminski? Além do mais, a sua geração leu muito do que os beatniks produziam, mas não se percebe isso com muita clareza nas obras atuais, salvo raríssimas exceções. Qual a razão de haver a fixação estética no pós-45? Você acredita que o Brasil não assimilou aquela onda beat ou que essa produção não teve consistência necessária para continuar influenciando ainda hoje?

ACLYSE MATTOS – Em questão de literatura os nossos beatnicks são melhores que os beatnicks deles (como dizia um antigo comercial). A cultura norte-americana é muito produtivista (para o bem e para o mal, porque tenho uma inveja danada da capacidade de sistematização deles). A viagem dos modernistas pela Amazônia precedeu em décadas o On The Road do Keruak. No passeio no calhambeque do Oswald dá para ver desde o tuberculoso no bonde aos uivos dos lobos do Ginsberg. As crônicas do João do Rio e também Os Sertões são anteriores ao movimento de literatura jornalística do Hemingway. Se há algo que o Brasil não devia nada a ninguém era na arte da palavra. Infelizmente há um jugo cultural – especialmente teórico – que despreza todas as nossas invenções simbólicas autênticas. Acho muito reflexo do jogo de poder que há na política e na academia. Basta ver a dificuldade de entender um Antônio Sodré, por exemplo: um beatnick alfarrabista. Acho e.e. cummings um excelente poeta, mas é bem diferente dos  beats. O culto a viagem das drogas já perdeu o apelo (o que não quer dizer que o uso das drogas tenha diminuído, ao contrário, virou uma indústria com marketing e tudo). A influência beat está mais na cultura, uma cultura do consumo e do hedonismo. Sexo, drogas e Rock & Roll é puro slogan derivado da geração beatnick. Nesse sentido ela triunfou unindo o consumo New Age com a comuna New Left. Mas essa cultura é imediatista, se desintegra logo que se estabelece. Escritor é bicho obsessivo. Está aí o Drummond com “meu verso é minha cachaça”. Puxa: se é hedonista já vinha dos gregos. Lembrei que Sodrezinho unia os gregos com os tupis através das palavras, por exemplo, Oca e Ekos para dizer de casa. Somos mesmo mais modernos do que eles.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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