Anna Maria Ribeiro Costa

É doutora em História pela UFPE e Professora do Univag. Chegou às terras do povo indígena Nambiquara na Primavera de 1982. Dos índios recebeu o nome Alusu, por conta de seus hábitos alimentares. Nessas terras, conheceu José Eduardo, com quem tem dois filhos: Theo e Loyuá. Vem se dedicando aos estudos sobre os povos indígenas de Mato Grosso, com especial atenção ao Nambiquara.

A CURA DAS ENFERMIDADES

No tempo de antigamente, ab initio, a pessoa do pajé não existia entre os grupos da etnia Nambiquara do Cerrado. Mas, houve um dia na aldeia em que um menino adoeceu seriamente, deixando todos em grande tristeza.  A gravidade da saúde do indiozinho levou o pai, que era pajé mas não conhecia suas virtudes sobrenaturais por nunca terem sido reveladas, a caminhar a ermo pelo cerrado.


Já afastado do círculo da aldeia, avistou uma montanha muito grande. Sem entender, conseguiu entrar naquele lugar e encontrou muitas almas.  O dono da casa, um espírito, entregou uma planta ao homem e recomendou a preparar banhos para a criança.  O pajé acatou o que foi determinado e voltou para casa.  Ao chegar, explicou a sua mulher como obter o remédio. Seu filho foi tratado com aquelas raízes, quando depois de alguns dias recuperou plenamente sua saúde.  


O pai do menino lembrou da casa das almas e construiu uma para ele e sua família com o mesmo formato arredondado.  Passou a morar na casa para ter sempre a lembrança da montanha sagrada e de seus antepassados.  Numa tardezinha, após a cura da criança, o pajé chamou os moradores da aldeia para revelar seus poderes sobrenaturais. Desse dia em diante, passou a responsabilizar-se pela boa saúde de todos.


Além de se premunir e aos demais indígenas de diversos infortúnios, outras atribuições cabíveis aos pajés distinguem-no dos outros membros de seu grupo.  Possuem poder visionário, estabelecem relações com os espíritos dos mortos e da natureza (de quem aprende novos remédios, quando benfeitores), falam com animais, transportam objetos mágicos em seu corpo, sabem colocar ou desfazer feitiços e fazem retornar a alma que tenha se retirado do corpo dos enfermos. 


Aos poucos, outros pajés foram surgindo e aprendendo a fazer uso de remédios extraídos de folhas, raízes e cascas vegetais. Também a usar a técnica da sucção, a sugar pontos dos corpos adoentados das pessoas. Ao repetirem várias vezes esse ato, levam a mão à boca para a retirada de algum objeto em decomposição do corpo do paciente. Esses objetos são arremessados para longe, quando o pajé profere palavras consideradas poderosas e decisivas para a cura da doença. Seu canto e vasto repertório musical preenchem os procedimentos milenares de cura, transmitidos de geração em geração.


Mas, chegaram, igual formigas, os kwajantisu, comedores de feijão, como o povo Nambiquara do Cerrado chama os não indígenas. Com eles, muitas moléstias desconhecidas trouxeram. Os indígenas conheceram doenças infectocontagiosas como o sarampo e a gripe que as levaram quase ao extermínio. E os pajés vêm associando suas práticas de cura às do kwajantisu...

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